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Autismo e Síndrome de Asperger. Qual a diferença?

 

Na última década a ciência avançou no diagnóstico do espectro autista, mas muitas dúvidas ainda recorrem sobre esse tema. Com objetivo de aprofundar o conhecimento científico sobre esse espectro, a Fundação Maria Emília apoia o projeto “Mapeamento genético de crianças com Autismo na população de Salvador”, realizado em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino. Para esclarecer as principais dúvidas que envolvem o autismo, confira a entrevista que fizemos com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, Dr. Bruno Solando, médico e pesquisador do IDOR e Fiocruz e a neuropediatra, Dra. Cecília Araújo.

1- Qual a diferença entre autismo e a Síndrome de Asperger?
Antigamente, até o ano de 2012, o diagnóstico de Síndrome de Asperger se diferenciava da definição antiga de autismo pois se referia a crianças com bom funcionamento intelectual, mas que apresentavam comportamento excêntrico, prejuízo na interação social devido aos comportamentos inapropriados, episódios de ecolalia (fala repetitiva) e interesses restritos, bem como comportamentos repetitivos.
As características clínicas se assemelhavam ao transtorno do espectro do autismo nível 1 de suporte (dito “leve”) e em geral, com rápida evolução após introdução de terapias.
Atualmente, no entanto, seguindo a classificação internacional do manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais (DSM 5), a Síndrome de Asperger passou a ser considerada parte dos transtornos do espectro do autismo.
(Dr. Bruno Solano, médico e pesquisador IDOR e Fiocruz)

2- Quais as principais limitações do portador de Asperger?

As principais limitações observadas em crianças que anteriormente recebiam o diagnóstico de Síndrome de Asperger estão relacionados ao prejuízo na comunicação, com atraso da linguagem, alteração no ritmo e entonação da fala (prosódia), os interesses restritos ou hiperfocos em assuntos ou objetos que fogem ao senso e interesse comum à sua idade. Este hiperfoco leva a dificuldades na interação da criança com outras crianças e com adultos. Por exemplo, a criança se interessa excessivamente por dinossauros, logomarcas, automóveis, animais marinhos ou outros assuntos, e se aprofunda muito em cada tema, retornando o assunto sempre da mesma forma. Isso reflete também uma inflexibilidade cognitiva observada na Síndrome de Asperger. Além disso, podem apresentar comportamentos repetitivos, utilizados muitas vezes como uma autorregulação (para se acalmar), como pulos, movimentos com as mãos, contorções e maneirismos. Os comportamentos disruptivos, como irritabilidade e agressividade, podem acontecer de forma mais frequente, principalmente naqueles pacientes com baixo limiar de frustração, atraso da linguagem e dificuldade na socialização. Nas crianças com melhor padrão cognitivo, podem ocorrer comportamentos de evitação ao outro, desafiando e menosprezando seus pares, o que dificulta suas atividades em grupo.
Dra. Cecília Araújo (médica neuropediatra, doutoranda do IDOR)

3- Após o diagnóstico médico, qual é tratamento mais indicado?

O tratamento atual utilizado para as crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (incluindo então aquelas que outrora foram diagnosticadas como Síndrome de Asperger), são baseadas em estimulação através de Terapia Comportamental, principalmente, hoje reconhecidas pelo ABA (Applied Behavioral Analyses), associada a terapias auxiliares com fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicopedagogia, psicomotricista, dentre outros que forem necessários, após uma avaliação individual caso a caso. A intensidade e duração das terapias irá depender diretamente do grau de funcionalidade de cada criança.
A terapia medicamentosa pode ser utilizada quando os sintomas estão associado a comportamentos agressivos, autolesivos e heteroagressivos, além de agitação psicomotora, comportamentos que coloquem a criança em risco de morte e de lesões, naquelas cujas terapias estão sendo prejudicadas devido a algum comportamento específico da criança, ou ainda quando há associação de comorbidades (como Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, Transtorno de Ansiedade, depressão, Transtorno Opositor Desafiador, Epilepsia e etc).”
Dra. Cecília Araújo (médica neuropediatra, doutoranda do IDOR)

4- O senhor considera que a ciência tem avançado no estudo dessa síndrome?

Na década passada foi feito um grande esforço para agrupar uma série de diagnósticos, dentre eles a Síndrome de Asperger, dentro do mesmo ‘guarda-chuva’ de transtornos do espectro do autismo. Este agrupamento se dá porque existem fatores em comum entre todos estes transtornos, mas sabemos que cada um deles tem suas particularidades e que cada paciente é único. Deste modo, acredito que a ciência tem trabalhado para cada vez mais avançar com dados de estudos envolvendo sequenciamento do genoma completo, estudos envolvendo células-tronco e minicérebros produzidos em laboratório, busca de biomarcadores e farmacogenômica para que num futuro próximo possamos dispor de novos métodos de diagnóstico e tratamento individualizado dos transtornos do espectro do autismo, incluindo os casos de Síndrome de Asperger.

Fundação Maria Emília

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