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A representatividade das mulheres na ciência brasileira  

A cada dia mais mulheres brasileiras se destacam na esfera científica de diferentes áreas do saber, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido para conseguir igualdade de gênero.

Historicamente a luta foi muito árdua, no ano 1879 as mulheres brasileiras conseguiram permissão para ingressar no ensino superior. Nesta época, as mulheres eram impedidas de transitar por vários espaços públicos, sendo um deles, a universidade. Um dos grandes avanços contemporâneos de políticas educacionais e do movimento feminista foi a entrada massiva de mulheres nas universidades brasileiras.

Exclusão histórica

A despeito do esforço envidado nos últimos quinze anos para incentivar a participação de mulheres e meninas na ciência, dados da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, mostram que menos de 30% dos pesquisadores em todo o mundo são mulheres, o que evidencia a exclusão histórica de sua participação no setor. No Brasil, o acesso ao ensino superior feminino deu-se somente no final do século XIX e apenas nas últimas décadas esse acesso foi de fato ampliado, o que representa uma janela de tempo ainda curta para a diminuição da distância entre mulheres e homens. É preciso investir na educação básica, com ações que visem estimular e apoiar meninas das escolas públicas e privadas oferecendo elementos para que mais mulheres acessem determinadas áreas do conhecimento e, consequentemente, o mercado de trabalho onde são minoria. Não obstante, é preciso comemorar os ganhos: Pesquisas indicam que as mulheres tem sido maioria em todos os níveis de ensino no Brasil, inclusive o superior (BRASIL, 2019);

Atualmente, segundo dados publicados em 2017 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), as mulheres obtiveram grande avanço e hoje são 56,95% nas matrículas dos cursos de graduação no Brasil e sendo na pós graduação 54, 84 % no mestrado strictu sensu e 53, 54 % no doutorado strictu sensu.

Mas estes números escondem realidades diferentes, sendo estas chamadas de segregação vertical e horizontal, que impedem a uma grande quantidade de mulheres ascender na carreira acadêmica- cientifica.

Para exemplificar esta situação, abaixo, uma tabela das bolsas de produtividade científica outorgadas pela maior agência federal financiadora de projetos de Pesquisa – CNPQ demonstrando estas diferencias.

Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPQ por sexo (2015-2017)

Categoria/ Nível %Feminino %Masculino
2015 2016 2017 2015 2016 2017
SR 24,2 24,6 25,6 75,8 75,3 74,3
1A 24,6 25,0 25,9 75,4 75,0 74,0
1B 31,7 31,5 31,3 68,3 68,4 68,6
1C 36 35,7 35,4 64,0 62,2 64,5
1D 35,8 35,4 35,1 64,2 64,5 64,8
2 37,9 37,4 37,4 62,1 62,5 62,5
Total 35,5 35,3 35,3 64,5 64,6 64,6

Fonte: Encaminhado pelo CNPq via Lei de Acesso à Informação.

Esforços estão sendo realizados para mudar esta realidade no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz, uma das instituições de pesquisa federais mais prestigiosas do país, está comprometida com a promoção da equidade de gênero na Ciência, em consonância com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos na Agenda 2030. Em 2015, foi instituído 11 de fevereiro, Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciências pela Assembleia das Nações Unidas e passou a integrar o calendário de eventos da Fundação em 2019. Sob a liderança da Unesco e da ONU Mulheres, o evento acontece em diversos países, com atividades que visam dar visibilidade ao papel e às contribuições fundamentais das mulheres nas áreas de pesquisa científica e tecnológica.

Ressaltamos aqui mulheres cientistas que com sua grande contribuição fizeram diferenças durante pandemia do Covid 19 em 2020. São elas: as biomédicas Jaqueline Góes de Jesus, Ingra Morales, Flávia Salles e a farmacêutica Erika Manuli, pesquisadoras da Faculdade de Medicina da USP, dentro do Instituto Adolfo Lutz (IAL), elas decifraram a amostra do primeiro caso de infecção da Covid-19 na América Latina. O resultado saiu em apenas 48 horas, mostrando a estrutura do vírus mediante o sequenciamento viral. Todas elas formam parte da equipe do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), grupo de excelência também liderado por uma mulher: a médica Ester Sabino, 60 anos.

Esta importante pesquisa foi coordenada por Claudio Sachi e  Jaqueline Gões de Jesus  que é baiana,  Graduada pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, doutora em Patologia Humana, Jaqueline atuou anteriormente na vigilância genômica do surto de Febre Amarela no Brasil, além da cobertura de chikungunya e a atuação em um grupo de estudos que percorreu todo o Nordeste em um trailer adaptado para fazer diagnósticos e sequenciamento do Zika demonstrando sua devoção pela pesquisa na área de Saúde.

Hoje, as mulheres representam cerca de 54% dos estudantes de doutorado no Brasil, o que corresponde a um aumento de 10% nas últimas duas décadas. Esse número é semelhante ao dos países desenvolvidos, como por exemplo, os Estados Unidos. Precisamos ter em mente, entretanto, que o grau de escolaridade da mulher não tem assegurado que ela tenha o mesmo reconhecimento profissional que o dos homens. Isso é real, e é mais uma bandeira pela qual precisamos continuar lutando para termos as garantias de que um dia iremos ocupar um lugar de igualdade junto aos homens no que se refere à atuação profissional, incluindo a representatividade na ciência.

 

Colaboraram com esse texto as pesquisadoras:

 Dra. Maria Isabel Schinoni – Professora Adjunta IV de Bioquimica do Instituto de Ciências da Saúde- ICS- UFBA e Médica Investigadora de Ensaios Clínicos de Núcleo de Hepatologia do HUPES-UFBA

Dra. Lea Castellucci – Pesquisadora associada do Serviço de Imunologia da Universidade Federal da Bahia, Professora e vice-coordenadora do Curso de Pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

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